Três da manhã. O paciente não responde como deveria, você tem uma hipótese e uma segunda possibilidade incômoda. Você pergunta para uma IA e recebe um parágrafo impecável: bem escrito, confiante, plausível. E aí começa o problema real — você não tem como saber em cima de quê aquilo foi construído.
Numa UTI, uma resposta que não pode ser conferida não economiza tempo: ela transfere o tempo economizado para a desconfiança. E desconfiança, na beira do leito, custa mais caro que digitar.
O que a resolução passou a exigir
A Resolução CFM nº 2.454/2026 fixa um limite que não é negociável: a decisão final sobre diagnóstico, tratamento e prognóstico é sempre humana. Mas o ponto que mais mexe com software é o outro — a exigência de supervisão humana significativa.
Significativa quer dizer que o médico precisa ter condições reais de discordar. Não basta um botão de recusa. Se para discordar você tiver que sair da tela, reconstruir o raciocínio de cabeça e procurar a diretriz, a supervisão é decorativa: existe no fluxograma e não existe no plantão.
Supervisão humana significativa não é um parágrafo jurídico. É um requisito de interface.
As quatro coisas que precisam vir juntas
Toda sugestão de conduta deveria chegar acompanhada de quatro elementos, sem que ninguém precise pedir. Se um deles falta, a sugestão não é auditável — e o que não é auditável não deveria influenciar prescrição.
- Os dados que sustentam. Quais valores, de qual horário e de qual fonte. Um lactato de ontem e um lactato de vinte minutos atrás não sustentam a mesma conduta.
- Os dados que contradizem. Este é o que quase nenhum sistema mostra, e é o mais importante. Uma IA que só apresenta o que confirma a própria hipótese está te convencendo, não te informando.
- O que está faltando. A lacuna precisa aparecer como lacuna. Hemocultura não coletada não é hemocultura negativa, e campo em branco não é “sem alteração”.
- A referência, com versão e data. Qual critério ou diretriz sustenta a recomendação, em qual edição — e qual versão da base de conhecimento estava em uso quando a sugestão foi feita.
Por que mostrar o contraditório melhora a decisão
Existe um efeito perverso em respostas muito bem escritas: fluência é lida como competência. Quanto mais coerente o texto, menos o leitor procura a falha. Colocar o dado discordante na mesma tela quebra esse automatismo — e devolve ao médico a dúvida que ele já teria tido se estivesse olhando os números por conta própria.
Na prática, é isso que torna a discordância barata. Se o motivo para discordar já está na tela, discordar leva cinco segundos. Se não está, discordar leva quinze minutos — e quinze minutos, às três da manhã, é o mesmo que não discordar.
Três perguntas para fazer a qualquer fornecedor
- A sugestão mostra o que a contradiz? Se a resposta for “o médico pode consultar os dados”, a resposta é não.
- Dá para reconstruir a decisão seis meses depois? Quais dados a IA viu, em qual versão do modelo, quem revisou e o que decidiu — com data e hora.
- Recusar trava o fluxo? Se recusar custa mais que aceitar, o sistema está empurrando a conduta em vez de apoiá-la.
Nenhuma dessas três é uma exigência exótica. Todas decorrem do que o CFM passou a pedir, e todas se resolvem no desenho da tela — não em um termo de responsabilidade assinado no rodapé.
Referências citadas
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.454/2026 — uso de inteligência artificial na prática médica.
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 1.821/2007 — prontuário eletrônico.
- Lei nº 13.709/2018 (LGPD) — dado de saúde como dado pessoal sensível.
